18/10/2019 21:52
0 Membros e 1 Visitante estão a ver este tópico.

Deus

  • Milionário
  • ****
  • 2459 Mensagens
#1   
Para quem gosta de Poesia que poste aqui alguns poemas  :thumbsup:

Deus

  • Milionário
  • ****
  • 2459 Mensagens
#2   
Vou começar pelo meu poeta favorito, é um pouco grande mas vale a pena...

Alberto Caeiro - VIII - Num Meio-Dia de Fim de Primavera


     Num meio-dia de fim de primavera 
     Tive um sonho como uma fotografia. 
     Vi Jesus Cristo descer à terra. 
     Veio pela encosta de um monte 
     Tornado outra vez menino, 
     A correr e a rolar-se pela erva 
     E a arrancar flores para as deitar fora 
     E a rir de modo a ouvir-se de longe.         Tinha fugido do céu. 
     Era nosso demais para fingir 
     De segunda pessoa da Trindade. 
     No céu era tudo falso, tudo em desacordo 
     Com flores e árvores e pedras. 
     No céu tinha que estar sempre sério 
     E de vez em quando de se tornar outra vez  homem 
     E subir para a cruz, e estar sempre a morrer 
     Com uma coroa toda à roda de espinhos 
     E os pés espetados por um prego  com cabeça, 
     E até com um trapo à roda  da cintura 
     Como os pretos nas ilustrações. 
     Nem sequer o deixavam ter pai e mãe 
     Como as outras crianças. 
     O seu pai era duas pessoas 
     Um velho chamado José, que era carpinteiro, 
     E que não era pai dele; 
     E o outro pai era uma pomba estúpida, 
     A única pomba feia do mundo 
     Porque não era do mundo nem era  pomba. 
     E a sua mãe não tinha amado  antes de o ter.   
     Não era mulher: era uma mala 
     Em que ele tinha vindo do céu. 
     E queriam que ele, que só nascera  da mãe, 
     E nunca tivera pai para amar com respeito, 
     Pregasse a bondade e a justiça!   
     Um dia que Deus estava a dormir 
     E o Espírito Santo andava a voar, 
     Ele foi à caixa dos milagres e roubou  três. 
     Com o primeiro fez que ninguém soubesse  que ele tinha fugido. 
     Com o segundo criou-se eternamente humano  e menino. 
     Com o terceiro criou um Cristo eternamente  na cruz 
     E deixou-o pregado na cruz que há  no céu 
     E serve de modelo às outras. 
     Depois fugiu para o sol 
     E desceu pelo primeiro raio que apanhou.   
     Hoje vive na minha aldeia comigo. 
     É uma criança bonita de riso  e natural.   
     Limpa o nariz ao braço direito,  
     Chapinha nas poças de água, 
     Colhe as flores e gosta delas e esquece-as.   
     Atira pedras aos burros, 
     Rouba a fruta dos pomares 
     E foge a chorar e a gritar dos cães. 
     E, porque sabe que elas não gostam 
     E que toda a gente acha graça, 
     Corre atrás das raparigas pelas  estradas 
     Que vão em ranchos pela estradas 
     com as bilhas às cabeças 
     E levanta-lhes as saias.   
     A mim ensinou-me tudo. 
     Ensinou-me a olhar para as cousas. 
     Aponta-me todas as cousas que há  nas flores. 
     Mostra-me como as pedras são engraçadas  
     Quando a gente as tem na mão 
     E olha devagar para elas.   
     Diz-me muito mal de Deus. 
     Diz que ele é um velho estúpido  e doente, 
     Sempre a escarrar no chão 
     E a dizer indecências. 
     A Virgem Maria leva as tardes da eternidade  a fazer meia. 
     E o Espírito Santo coça-se  com o bico 
     E empoleira-se nas cadeiras e suja-as. 
     Tudo no céu é estúpido  como a Igreja Católica. 
     Diz-me que Deus não percebe nada 
     Das coisas que criou — 
     "Se é que ele as criou, do que duvido"  — 
     "Ele diz, por exemplo, que os seres cantam  a sua glória,  
     Mas os seres não cantam nada. 
     Se cantassem seriam cantores. 
     Os seres existem e mais nada, 
     E por isso se chamam seres." 
     E depois, cansados de dizer mal de Deus, 
     O Menino Jesus adormece nos meus braços 
     e eu levo-o ao colo para casa. 
     ............................................................................. 
     Ele mora comigo na minha casa a meio do  outeiro. 
     Ele é a Eterna Criança, o  deus que faltava. 
     Ele é o humano que é natural, 
     Ele é o divino que sorri e que brinca. 
     E por isso é que eu sei com toda  a certeza 
     Que ele é o Menino Jesus verdadeiro.   
     E a criança tão humana que  é divina 
     É esta minha quotidiana vida de  poeta, 
     E é porque ele anda sempre comigo  que eu sou poeta sempre, 
     E que o meu mínimo olhar 
     Me enche de sensação, 
     E o mais pequeno som, seja do que for, 
     Parece falar comigo.   
     A Criança Nova que habita onde vivo 
     Dá-me uma mão a mim 
     E a outra a tudo que existe 
     E assim vamos os três pelo caminho  que houver, 
     Saltando e cantando e rindo 
     E gozando o nosso segredo comum 
     Que é o de saber por toda a parte 
     Que não há mistério  no mundo 
     E que tudo vale a pena.   
     A Criança Eterna acompanha-me sempre. 
     A direção do meu olhar é  o seu dedo apontando. 
     O meu ouvido atento alegremente a todos  os sons 
     São as cócegas que ele me  faz, brincando, nas orelhas.   
     Damo-nos tão bem um com o outro 
     Na companhia de tudo 
     Que nunca pensamos um no outro, 
     Mas vivemos juntos e dois 
     Com um acordo íntimo 
     Como a mão direita e a esquerda.   
     Ao anoitecer brincamos as cinco pedrinhas 
     No degrau da porta de casa, 
     Graves como convém a um deus e a  um poeta, 
     E como se cada pedra 
     Fosse todo um universo 
     E fosse por isso um grande perigo para  ela 
     Deixá-la cair no chão.   
     Depois eu conto-lhe histórias das  cousas só dos homens 
     E ele sorri, porque tudo é incrível. 
     Ri dos reis e dos que não são  reis, 
     E tem pena de ouvir falar das guerras, 
     E dos comércios, e dos navios 
     Que ficam fumo no ar dos altos-mares. 
     Porque ele sabe que tudo isso falta àquela  verdade 
     Que uma flor tem ao florescer 
     E que anda com a luz do sol 
     A variar os montes e os vales, 
     E a fazer doer nos olhos os muros caiados.   
     Depois ele adormece e eu deito-o. 
     Levo-o ao colo para dentro de casa 
     E deito-o, despindo-o lentamente 
     E como seguindo um ritual muito limpo 
     E todo materno até ele estar nu.   
     Ele dorme dentro da minha alma 
     E às vezes acorda de noite 
     E brinca com os meus sonhos. 
     Vira uns de pernas para o ar, 
     Põe uns em cima dos outros 
     E bate as palmas sozinho 
     Sorrindo para o meu sono. 
     ...................................................................... 
     Quando eu morrer, filhinho, 
     Seja eu a criança, o mais pequeno. 
     Pega-me tu ao colo 
     E leva-me para dentro da tua casa. 
     Despe o meu ser cansado e humano 
     E deita-me na tua cama. 
     E conta-me histórias, caso eu acorde, 
     Para eu tornar a adormecer. 
     E dá-me sonhos teus para eu brincar 
     Até que nasça qualquer dia 
     Que tu sabes qual é. 
     ..................................................................... 
     Esta é a história do meu  Menino Jesus. 
     Por que razão que se perceba 
     Não há de ser ela mais verdadeira 
     Que tudo quanto os filósofos pensam 
     E tudo quanto as religiões ensinam?

deophanto

  • Trilionário
  • *****
  • Admin
  • 12034 Mensagens
#3   
Não aprecio o Alberto Caeiro, sou mais Álvaro de Campos ;)

Deus

  • Milionário
  • ****
  • 2459 Mensagens
#4   
Não aprecio o Alberto Caeiro, sou mais Álvaro de Campos ;)

Eu gosto muito de tudo o que é de Pessoa logo tambem gosto de Campos mas adoro a simplicidade de Caeiro, ele é como eu gostava de ser...

Straczynski

  • Trilionário
  • *****
  • Mod. Poker
  • 5624 Mensagens
#5   
Achei piada ao poema, também sou muito mais Campos, gosto de FP, mas AC é o que não dispenso ter o livro em casa, para quando apetece ;)

Belo tópico  :thumbsup:

kieroN

  • High Roller
  • ***
  • 817 Mensagens
#6   
O MENINO DE SUA MÃE

No plaino abandonado
Que a morna brisa aquece,
De balas trespassado-
Duas, de lado a lado-,
Jaz morto, e arrefece.

Raia-lhe a farda o sangue.
De braços estendidos,
Alvo, louro, exangue,
Fita com olhar langue
E cego os céus perdidos.

Tão jovem! Que jovem era!
(agora que idade tem?)
Filho unico, a mãe lhe dera
Um nome e o mantivera:
«O menino de sua mãe.»

Caiu-lhe da algibeira
A cigarreira breve.
Dera-lhe a mãe. Está inteira
E boa a cigarreira.
Ele é que já não serve.

De outra algibeira, alada
Ponta a roçar o solo,
A brancura embainhada
De um lenço… deu-lho a criada
Velha que o trouxe ao colo.

Lá longe, em casa, há a prece:
“Que volte cedo, e bem!”
(Malhas que o Império tece!)
Jaz morto e apodrece
O menino da sua mãe

Fernando Pessoa


----

Isto é uma obra de arte!

Dinis

  • Trilionário
  • *****
  • 33746 Mensagens
#7   
Gosto de Pessoa
Deixo aqui os meus dois favoritos  :thumbsup:



 Mar Português

Ó mar salgado, quanto do teu sal
São lágrimas de Portugal!
Por te cruzarmos, quantas mães choraram,
Quantos filhos em vão rezaram!
Quantas noivas ficaram por casar
Para que fosses nosso, ó mar!

Valeu a pena? Tudo vale a pena
Se a alma nao é pequena.
Quem quer passar além do Bojador
Tem que passar além da dor.
Deus ao mar o perigo e o abismo deu,
Mas nele é que espelhou o céu.


-------------------------------------------
O dos castelos

A Europa jaz, posta nos cotovellos:
De Oriente a Occidente jaz, fitando,
E toldam-lhe românticos cabellos
Olhos gregos, lembrando.

 
O cotovello esquerdo é recuado;
O direito é em ângulo disposto.
Aquelle diz Itália onde é pousado;
Este diz Inglaterra onde, afastado,
A mão sustenta, em que se appoia o rosto.

 
Fita, com olhar sphyngico e fatal,
O Occidente, futuro do passado.

 
O rosto com que fita é Portugal.

Tomás Silva

  • Trilionário
  • *****
  • Admin
  • 20069 Mensagens
#8   
O MENINO DE SUA MÃE

No plaino abandonado
Que a morna brisa aquece,
De balas trespassado-
Duas, de lado a lado-,
Jaz morto, e arrefece.

Raia-lhe a farda o sangue.
De braços estendidos,
Alvo, louro, exangue,
Fita com olhar langue
E cego os céus perdidos.

Tão jovem! Que jovem era!
(agora que idade tem?)
Filho unico, a mãe lhe dera
Um nome e o mantivera:
«O menino de sua mãe.»

Caiu-lhe da algibeira
A cigarreira breve.
Dera-lhe a mãe. Está inteira
E boa a cigarreira.
Ele é que já não serve.

De outra algibeira, alada
Ponta a roçar o solo,
A brancura embainhada
De um lenço… deu-lho a criada
Velha que o trouxe ao colo.

Lá longe, em casa, há a prece:
“Que volte cedo, e bem!”
(Malhas que o Império tece!)
Jaz morto e apodrece
O menino da sua mãe

Fernando Pessoa


----

Isto é uma obra de arte!

Até arrepia. Há quanto tempo não ouvia isto!

deophanto

  • Trilionário
  • *****
  • Admin
  • 12034 Mensagens
#9   
O MENINO DE SUA MÃE

No plaino abandonado
Que a morna brisa aquece,
De balas trespassado-
Duas, de lado a lado-,
Jaz morto, e arrefece.

Raia-lhe a farda o sangue.
De braços estendidos,
Alvo, louro, exangue,
Fita com olhar langue
E cego os céus perdidos.

Tão jovem! Que jovem era!
(agora que idade tem?)
Filho unico, a mãe lhe dera
Um nome e o mantivera:
«O menino de sua mãe.»

Caiu-lhe da algibeira
A cigarreira breve.
Dera-lhe a mãe. Está inteira
E boa a cigarreira.
Ele é que já não serve.

De outra algibeira, alada
Ponta a roçar o solo,
A brancura embainhada
De um lenço… deu-lho a criada
Velha que o trouxe ao colo.

Lá longe, em casa, há a prece:
“Que volte cedo, e bem!”
(Malhas que o Império tece!)
Jaz morto e apodrece
O menino da sua mãe

Fernando Pessoa


----

Isto é uma obra de arte!

Declamei este no Liceu, já há uns anitos

Deus

  • Milionário
  • ****
  • 2459 Mensagens
#10   
Um grande poema de Pablo Neruda
Morre lentamente
        quem não viaja,
        quem não lê,
        quem não ouve música,
        quem não encontra graça em si mesmo
       
        Morre lentamente
        quem destrói seu amor próprio,
        quem não se deixa ajudar.
Morre lentamente
        quem se transforma em escravo do hábito
        repetindo todos os dias os mesmos trajectos,
        quem não muda de marca,
        não se arrisca a vestir uma nova cor
        ou não conversa com quem não conhece.               
Morre lentamente
        quem evita uma paixão e seu redemoinho de emoções, justamente as que        resgatam o brilho dos olhos e os corações aos tropeços.               
Morre lentamente
        quem não vira a mesa quando está infeliz com o seu trabalho, ou amor,
        quem não arrisca o certo pelo incerto para ir atrás de um sonho
        quem não se permite, pelo menos uma vez na vida,
        fugir dos conselhos sensatos...
                 
Viva hoje !
        Arrisque hoje !
Faça hoje !
        Não se deixe morrer lentamente !
                 

                                                               
NÃO SE ESQUEÇA DE SER FELIZ !